Aos 15 anos, ela percebeu que os olhares em sua direção, eram muito diferentes. Quando estava na escola, suas amigas observavam o que ela escrevia no caderno, a cor da sua sandália, seu penteado, se seus seios estavam crescendo... Essas coisas de menina. Os meninos olhavam a mão dela escrevendo no caderno, como o pé parava embaixo da carteira da sala de aula, a parte do pescoço que ficava descoberta e se havia alguma coisa aparecendo.
Ela achava tudo um tédio. Ficava nervosa em época de prova e era proibida de sair. Sua mãe dizia que era por causa das notas, mas ela sabia que também era porque não sobrava dinheiro para um cinema ou passeio.
Logo depois, percebeu que suas colegas começaram a pedir suas coisas, dadas ou emprestadas. Uma queria o prendedor, outra pedia roupas, maquiagem, e assim por diante. Ainda bem que não eram todas, senão teria de abrir uma lojinha.
Os meninos já se mostraram completamente originais, pelo fato de todos quererem a mesma coisa, sempre.
Durante um lanche com uma colega, comentou sobre o que havia refletido em relação ao comportamento das meninas e também dos meninos. A outra lhe disse: "Quando as pessoas querem, pagam para ter". Ela não entendeu toda a extensão do comentário, mas era certo que na bolsa da outra havia mais dinheiro do que ela poderia ganhar durante um ano, apenas vendendo bugigangas.
Numa noite, conheceu um cara que insistiu muito pra 'ficar' com ela. Como não sentia nada por ele, repetiu aquela frase que ouvira. Ele imediatamente perguntou: "Quanto você quer"? Nessa hora ela entendeu o porquê das garotas estarem sempre acompanhadas, com roupas caras e dinheiro no bolso.
Como num relâmpago cerebral, concluiu que meninas atingem seus objetivos a qualquer preço. Cedo, elas já entendem sobre algumas regras do capitalismo... Se muitos querem o que elas têm, nasce uma fonte de renda... Se a procura for grande, o preço sobe.
Os apelidos das suas colegas haviam mudado. Antes, atendiam por 'branquela', 'sequelada', 'tartaruga'... Na última festa que as encontrou (em qualquer lugar sempre tem muito mais homens que mulheres) viu um rapaz se aproximar de uma delas e dizer: "Quer dançar? Como você se chama"? A garota abordada, friamente respondeu: "Trezentos reais".
Atualmente, talvez ganhe tanto quanto as outras, apesar de ter gasto um pouco mais para aprender o que faz. Não, não está fazendo o mesmo, nem agenciando suas antigas colegas. Apenas tenta mostrar aos homens, o quanto são constantemente conduzidos. Além de pagarem pelos 'momentos', ainda precisam, depois, pagar 'outra' profissional para tomarem conhecimento daquilo que já ouviam de suas avós.
Tudo isso serviu para revelar sua vocação. Hoje, ela é psicoterapeuta profissional e - também - está às suas ordens, pela metade do preço, exclusivamente em horário comercial.
José Neto

































