31/10/2009

SONHEI QUE EU ERA O PRESIDENTE

Sempre achei um enorme desperdício, soldados das Forças Armadas fazendo tarefas que não exigem preparo militar. Eles servem cafezinhos a oficiais, abrem e fecham correntes de estacionamentos, são mordomos nas casas dos generais etc. Será que um militar que se preparou para ingressar nas Forças Armadas está satisfeito em podar arbustos e alimentar animais de madames, enquanto tantas situações aguardam iniciativas qualificadas?
Bem, mas eu era o Presidente e podia tentar modificar algumas coisas.
Imediatamente solicitei reunião com os ministros da Defesa e da Justiça. Pedi que eles convocassem oficiais de alta patente do Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal e BOPE para fazermos uma pequena operação. Aeronaves e veículos entregariam homens equipados e preparados, intelectual e fisicamente, entre 4:30h e 5:00h da manhã, em determinados pontos dos morros e do asfalto do Rio de Janeiro para capturar toda a rede alinhavada pelo tráfico e lavagem de dinheiro, incluindo políticos e magnatas esclarecidos que aguardavam suas fatias majoritárias de lucro, em suas mansões.
Sem qualquer espanto, recebi a notícia de que a Polícia Federal já tinha todos os registros, nomes de parentes, possíveis localizações de fuga, endereços estipulados como plano B, horários de trânsito, tudo rastreado em tempo real, em enormes monitores numa sala da qual já tinha ouvido falar.
Mandei que a Aeronáutica preparasse um cargueiro para ser o transporte de todos os capturados, com a logística necessária para suas novas funções, em novas terras.
Enviei comunicado à Marinha, ordenando – também – a revista de todas as embarcações de luxo que navegassem em águas brasileiras, sem exceção, de quaisquer proprietários, em quaisquer fronteiras. Antes das primeiras movimentações, instaurei um decreto acabando de vez com essa palhaçada, chamada: “Imunidade Parlamentar”.
Em conversa com dirigentes de Estados do Nordeste, delimitamos terreno na região do semi-árido, onde outra força militar levantaria, o mais rápido possível, nova prisão de segurança máxima, com irrigação artificial, abastecida pela abundante energia solar, sem sinal de telefonia celular e com variadas oficinas para todos os itens de necessidades básicas. Partiríamos do plantio e manipulação de frutas e verduras, passando pela confecção de pães e derivados, até o fabrico de movelaria diversa. Os detentos com nível superior ou equivalente, além do trabalho braçal, dariam aulas de ensino fundamental.
Foi uma experiência de sucesso com imediato resultado. Os níveis de violência e impunidade caíram abruptamente, e os jovens passaram a seguir novos e melhores exemplos. Naquele momento começávamos construir nova ética para gerações futuras.
Percebi que, com poucas decisões iniciais, consegui modificar situações internacionalmente vergonhosas.
O Distrito Federal teve de rapidamente abrir concursos para repor grande vazio repentino, enquanto eleições emergenciais se espalhavam por todo o país.
Quando acordei e refleti sobre meu sonho, tive a certeza de que a única coisa que realmente nos falta, chama-se: vontade.
José Neto Pandorgga

07/10/2009


22/07/2009

A FAZENDINHA E SEUS CAPATAZES

Após a publicação do jornal "O Estado de São Paulo" e a apresentação nos telejornais, assistimos a mais um episódio que pulveriza qualquer tentativa de crença na suposta moral dos políticos. A neta do "coronel" José Sarney, sem qualquer pudor, ética ou consciência, expõe um pouquinho das vísceras da política brasileira quando - por telefone - consegue mais uma contratação familiar para seu atual namorado.
Estudar, pra quê? Concurso, pra quê? Especializações, pra quê? Moralização, pra quê? Basta ter vovô em Brasília para que mais outra eterna torneira de dinheiro público e benefícios particulares se abra na casa de mamãe, papai, titio, maninho, amigos e até na casa do atual namorado. Será que essa garota vai pedir a vaga Federal de volta depois que o namoro terminar?
Até o Presidente Lula - pai do "Lulinha Telemar" - já confessou, como "nunca antes na história desse país": "todos os senadores são ótimos pizzaiolos". Mas, infelizmente, o povo não tem instrução para fazer nada. Servimos para arrebentar as mãos plantando tomates para que jamais falte molho em todas as pizzas dessa fazendinha chamada: Brasil.
O escárnio é tão grande que até os verdadeiros pizzaiolos ficaram ofendidos por serem comparados aos senadores.
Hoje estou ainda mais envergonhado com a pequenez, mesquinhez, insignificância e nenhuma elevação moral dos políticos para conosco: os otários, assalariados, desempregados, esperançosos e estudiosos brasileiros.
José Neto Pandorgga

04/07/2009

OPERAÇÃO BERNHARD

Quem diria que um grupo de judeus estava entre a ética e a sobrevivência, auxiliando assassinos nazistas, em troca da promessa de suas próprias vidas?
O maior programa de falsificação da história foi nomeado de “Operação Bernhard” (1942 a 1945), em homenagem ao nazi Bernhard Krüger que capturou, em Viena, o mais renomado falsário do mundo – Salomon Sorowitsch (1899-1960) – judeu formado na Academia de Belas Artes de Odessa (Rússia), para ser o grande banqueiro da II Guerra Mundial. A idéia era enfraquecer a economia dos Aliados e aumentar o número de mortes para além dos conhecidos 52 milhões (judeus, polacos, comunistas, dissidentes políticos, católicos, protestantes, homossexuais, negros, eslavos, húngaros, poloneses, ciganos, deficientes físicos, deficientes mentais, prisioneiros de guerra, sindicalistas, pacientes psiquiátricos e demais opositores), subjugados pela S.S.
Já no final do Terceiro Reich, mais precisamente no campo de Sachsenhausen, galpões 18 e 19, os falsificadores imprimiram – com perfeição – cerca de 130 milhões de libras esterlinas para fortalecer os cofres de Hitler e de seus comparsas, obcecados pelo poder. A quantia representava o quádruplo das riquezas estocadas no Banco da Inglaterra.
Nas horas vagas, também falsificavam dólares e passaportes para os ratos fardados que já preparavam suas fugas, planejando uma vida abastada, mesmo depois da aguardada derrota da Alemanha.
Dentre esses judeus falsificadores estava Adolf Burger (foto), preso n°64401, sobrevivente de Auschwitz-Birkenau (sul da Polônia), local onde deixou sua esposa Adele. Burger, ainda vivo, relator do episódio acontecido na “Gaiola de Ouro”, diariamente arriscava a vida do grupo, no intuito de atrapalhar e atrasar a entrega dos dólares falsos, acreditando que esse lapso de tempo poderia modificar toda a situação.
Mais tarde, em 1959, no Lago Toplitz (Áustria), foram encontrados vários engradados recheados com libras, entre tantos outros segredos da II Guerra.
Depois do suicídio de Hitler e de sua esposa Eva Braun (Führerbunker de Berlim - 30 de abril de 1945), Salomon, protegido pelo seu maior talento, frequentou inúmeros cassinos, com identidades variadas e dinheiro à vontade para jogar e se divertir com belas dançarinas. Burger escreveu um livro - "The Devil´s Workshop" - e ainda viaja com suas palestras reveladoras, replicando as marcas definitivas daquele período.
José Neto Pandorgga

27/06/2009

MICHAEL JOSEPH JACKSON

Michael Jackson (1958-2009) foi um daqueles gênios, redundantemente excêntricos, que descobriu algo mais sobre a vida. O quê essas pessoas descobrem para marcar - para sempre - várias gerações?
“Thriller” foi o álbum mais vendido da história, superando todos os grupos e artistas, como: The Beatles, Elvis Presley, James Brown, Rolling Stones, Prince, Mariah Carey, Whitney Houston, Madonna entre tantos outros participantes desses enormes índices de venda.
Não sei se conseguimos entender a amplitude desse efeito, mas o planeta - mesmo que por alguns instantes - sentiu sua perda. Sua partida teve magnitude para dar uma queda de energia, um curto momentâneo na bola terrestre. Não lembro de outro feito para tal.
Não havia como não ser atingido pela doçura da sua voz aliada ao talento de suas performances. Ele agradou a quase todos.
Impossível encontrar um artista tão marcante em minha geração.
Perdemos um talento único, um gênio, um apostador.
Deixou inesgotáveis sucessos, revolucionou todos os segmentos do show business, partiu com uma dívida de 1 bilhão de dólares e sinaliza a comprovação de que existe algo na vida que pouquíssimos têm a possibilidade de descobrir.
José Neto Pandorgga

17/06/2009

DIPLOMA

Cai a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para contratação nos meios de comunicação. Para esta votação, apenas o ministro Marco Aurélio Mello (foto/de pé) votou a favor dos jornalistas.
Claro que a formação acadêmica continuará preparando bons profissionais para que aprendam a entender o que realmente está por trás dos acontecimentos e das intenções.
Se os jornalistas revelam coisas indesejáveis, a idéia é desqualificá-los para que as acusações percam força.
Dessa forma, agradam a alguns proprietários que vão poder reduzir salários de novos contratados, além de incentivarem textos vazios, descontextualizados, escritos por celebridades instantâneas.
Eu gostaria que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, também fosse jornalista para que alegassem desvio de caráter em suas observações públicas, dirigidas ao ministro Gilmar Mendes (foto/sentado). Joaquim disse: "Vossa Excelência está destruindo a Justiça deste País”. "Vossa Excelência está destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro".
Aguardemos manifestações de nossos representantes.
Alguém tem o telefone do Chico Pinheiro?
José Neto Pandorgga

14/06/2009

MORAL OU ÉTICA?

Estamos acostumados a ler que falta ética no Brasil, mas essa é uma afirmação equivocada. “Ética é a passagem do sentido biológico para o cultural”. É quando optamos por uma doação - qualquer - de sentido, por um modo de ser, por um modo de existir; é quando respondemos à pergunta: Para quê viver? A finalidade que se encontra nessa resposta, representa a ética.
A moral está diretamente ligada ao respeito pelo outro, à necessidade de socialização, de educação para o bom convívio. A moral está presente na resposta à pergunta: Como devo agir?
A ética traz o Bem Viver (não significa viver bem); enquanto a moral deve trazer o Bem Agir. Na vida prática, o Bem Agir, a moral, é aquilo que nos proporciona a Bela Vida (não a vida bela), a alegria e o respeito por si mesmo.
A ética tradicional sempre esteve associada ao plano religioso, até o advento da Peste Negra ou peste bubônica (séc. XIV) transmitida através das pulgas de roedores que viajavam nos porões dos navios de comércio, vindos do oriente (1346-1352), quando um terço da população européia foi exterminada, 75 milhões de pessoas, despertando a consciência realista de que a Igreja nada pode fazer em relação à morte. Pior, ainda condenava a quem tentasse desenvolver a cura, alegando bruxaria.
Apesar de toda contribuição de René Descartes (França 1596-1650) à estruturação do Princípio Científico, somada a outros “esclarecimentos” do Iluminismo (séc. XVIII), quando Immanuel Kant (Alemanha 1724-1804) clamava para que a humanidade começasse a pensar por conta própria, utilizando sua autonomia; ainda hoje, em pleno século XXI, pessoas condicionam suas éticas a um ou outro tipo de religião, crendo que a contribuição, inclusive financeira, atenuará questões irrefutáveis, como a própria morte ou o bem viver.
Para o nosso país, falta moral. Há falta de respeito pelo outro, cometida, inicialmente, pela péssima distribuição de renda e pelo “como agir” consciente e estudado para lesar, impunemente.
José Neto Pandorgga.

07/06/2009

ALGUÉM GOSTA DE CRESCER?

Ando com uma saudade imensa da minha infância. A gente cresce e vai percebendo que caminha para um lugar bem diferente daquele que um dia pensáramos escolher.
Só hoje entendo os mais velhos dizendo que seria maravilhoso combinar experiência com juventude. Isso sim, seria um presente da vida. Mas, "quando achamos que sabemos as respostas, alguma Força muda as perguntas". O problema é que essa brincadeira segue por anos e, quando percebemos, tudo está diferente. Vem o espanto com as imposições do dono da vida: o tempo.
Alguns misturam teses freudianas com frases antropológicas, ditos gregos com provérbios budistas, para não aceitar a perda da infância.
Eu gostava de SuperAmigos, Pato Donald, Pantera cor-de-rosa, mas hoje sei que existem mensagens políticas e subjetivas até nos desenhos animados. Caramba, liberem pelo menos os desenhos animados. Mas, não, os políticos precisam de soldados e de dinheiro.
Eu brincava até ouvir a voz da minha mãe chamando pro almoço. Reclamava daquela interrupção maternal. Hoje vejo que ter almoço é praticamente uma bênção para a superpopulação mundial. O chato é que começo a entender que as mensagens nos desenhos, junto com a vontade dos políticos, fazem com que milhões de mães não chamem seus filhos para comer.
Olha no que a gente fica pensando depois que cresce.
José Neto Pandorgga

22/04/2009

SEJAM BEM-VINDOS!

A vida tem sido um jogo de perguntas sem respostas!
Por trás de uma das inúmeras janelas desses edifícios altos, fico tentando digerir meus pontos de interrogação, cumprindo oito horas de trabalho, olhando para o caminhar perdido e desinformado da população.
Por quê algumas pessoas ganham em poucas horas o que outras não conseguem juntar durante uma existência inteira?
O controle dos países ricos há muito que define quem vive e quantos terão seus sonhos abreviados, no terceiro mundo. Quando alguém se aproxima de montar o quebra-cabeça, chega outro e chuta tudo. O segredo é não nos deixar pensar, nem estudar, nem argumentar e, muito menos, mudar. Para o não pensar: o consumo. Para o não estudar: o custo. Sem os estudos, automaticamente, os outros objetivos são atingidos com tranquilidade.
Quem saberia responder o motivo pelo qual o atual presidente empresta nosso dinheiro ao FMI, enquanto tantos brasileiros ainda morrem de sede e fome?
Eu espero que essa pacata audiência entenda o quão vantajoso é o analfabetismo dos infantes e juvenis, para os verdadeiros donos das “bocas”. Algumas perguntas têm respostas, mas não têm explicações. Isso se chama: manipulação.
Será que um analfabeto que anda só de chinelo e calção, sem vocabulário, sem passaporte, sem nome limpo; conseguiria entrar no país com drogas e armas pesadas?
Enquanto a lona do circo – todos os dias – é limpa e iluminada, os brasilienses comentam que as três atividades mais rentáveis da cidade, são: política, restaurantes e prostíbulos. Lá, assim como em todos os locais, os políticos não trabalham; os restaurantes quase não fecham; e os prostíbulos usam a mesma campanha daquele Banco, oferecendo serviços e cardápios, 30 horas por dia. Esse é o Brasil que vale!
Sejam bem-vindos ao Brasil das mulatas (menores de idade que se acumulam nas beiras das estradas), do samba (que alegra as quadras cercadas pelo tráfico), do futebol (que reforça a anestesia do inquietamento ausente) e do carnaval (porque os bicheiros também não são de ferro).
Viva Santa Maria, Pinta e Nina!!!
José Neto Pandorgga

15/03/2009

SEMELHANÇAS

Curioso como alguns personagens tentam manipular, enquanto são manipulados por estratégias que contam com sua própria ignorância.
O jogo é aquele mesmo de “Tom & Jerry”, só que com irreversíveis consequências. Jerry visita a casa do cão de guarda para enviar uma mensagem a Tom que, em seu papel, se mostra publicamente preocupado com a proteção apresentada por seu companheiro. O cão, por sua vez, aceita a situação, porque pretende mostrar que pode afastar a presença do gato, pois essa é sua missão para com os donos da casa. Tom aproveita a encenação de seus inimigos-aliados e alimenta-se, sem pressa, na geladeira daqueles que pagam a ração do cão de guarda, sempre “deixando cair” uma bela fatia de queijo para Jerry.
Caramba! Que desenho legal!!! Acho que finalmente aprendo sobre "semelhanças"!
Dizem que não é bom mudar de assunto dentro do mesmo texto, mas vejo na TV que o presidente Lula visita Barack Obama, e fala dos motores Flex!
O que isso teria de desconhecido se a tecnologia Flex-Fuel foi desenvolvida, no final da década de 80, pela união de esforços dos EUA, Europa e Japão.
"Enquanto isso na sala de justiça"... Dilma ventila que “as trajetórias de Obama e Lula são semelhantes”?
Antes de comentar sobre a ventilada da Dilma, me confundi um pouco com os personagens. Estava falando de Tom, Jerry e o cão. De repente comecei a falar de Lula, Dilma e Obama! Mas, vamos continuar nas semelhanças.
Em linhas gerais, sei que Barack Hussein Obama, nasceu em Honolulu, Havaí, em 1961, formou-se em Direito em Harvard, foi professor em Chicago, Senador por Illinois e Presidente dos EUA.
Lula nasceu em Caetés, PE, frequentou aulas do primário, formou-se no curso de Torneiro Mecânico do SENAI, foi vendedor ambulante e engraxate.
Será que Obama concordaria com essa tal semelhança? Será que está faltando queijo para alguém mais? Será que Marcos Valério parou de distribuir os víveres da nossa geladeira?
Enquanto as viaturas policiais ficam sem combustível, e as crianças continuam sem merenda escolar; recomendo algo além das patacoadas de Tom, Jerry e o cão. Prestemos atenção nas lições geopolíticas mais uma vez oferecidas pelo incomparável Ridley Scott em “Rede de Mentiras”.
Se os desenhos animados de décadas passadas oferecem semelhanças; imaginem o Cinema contemporâneo global!
José Neto Pandorgga

07/03/2009

PAPO DE JORNALISTA

Foca, meu filho. Apura essa barriga, revisa a cabeça, descola uma cápsula e checa a escuta. Presta atenção! Logo depois do meu almoço – hoje não vai dar tempo pra você comer – faz a cozinha daquele gillette-press da manhã, aproveitando o iceberg do dromedário. Olha só! Insere uns gatos, mas toma cuidado com o amarelamento, porque isso aqui não é gesso de sogra. Pode lavar a égua, mas depois passa pro Jujuba copidescar. Segue no coloquial, principalmente no olho. Não esquece de levantar um boxe pra essa nota fria. Fica ligado, porque o pé-de-boi tá doidinho pra te pentear. Esquece a plantação e vê se faz uma retranca que me faça chorar de emoção!
Preciso que o trovão seja forte para haver suíte nos próximos dias. Depois disso, dá os créditos às devidas traças, confere o deadline, condensa e pode descer pro fechamento.
Avisa pra tua mãe que vai ter pescoção na madrugada! A noite hoje é especial: Você vai aguardar uns VIPs lá no IML.
Tá claro, meu filho? Então pára de me olhar como se fosse botar um ovo de avestruz bem aqui na minha sala, e cai fora!
José Neto Pandorgga
(GLOSSÁRIO DISPONÍVEL EM "COMENTÁRIOS")

03/03/2009

SLUMDOG MILLIONAIRE

O filme ganhador de oito cobiçadas estatuetas do Oscar (melhor filme, diretor, roteiro, fotografia, mixagem, edição, trilha sonora original e canção original), “Quem quer ser um milionário” ou "O milionário cão da favela", mostra a ferida exposta e gangrenada da Índia, República Parlamentar composta por 28 Estados e 7 territórios, acolhendo a segunda maior população do planeta: 1,2 bilhão de habitantes. A produção britânica revelou uma significativa parte da tristeza e miséria que se fundiram à vida daqueles sobreviventes da indigência.
No páreo com produções onerosas, o longa-metragem surpreendeu com seu baixo custo (US$15 milhões), alto grau de informação e nenhuma estrela no elenco. As cenas são inacreditáveis! Nada de efeitos absurdos, carros voadores ou personagens de HQ. O roteiro traz a vida dos verdadeiros super-heróis, pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, trabalhando e alimentando-se como animais.
Apesar de a história ter sua relevância, o que mais impressiona são as condições de descaso à vida, contrariando tudo que já lemos ou aprendemos sobre essas questões, desde a Trimurti, passando por Mahatma Gandhi e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Os atores mirins, moradores de uma das favelas locais, estão sendo tratados como representantes dessa catarse coletiva. A talentosa atriz Freida Pinto (foto) alivia a tensão dos espectadores com sua rara beleza, enquanto sua personagem (Latika) cria uma mistura de sensações, envolvendo amizade, amor e prostituição.
Trata-se de uma romanceada aula sobre o esgoto dos aplaudidos capitalistas globais que promovem “cães das favelas” (slumdogs) na Índia, facilmente encontrados também na África, na Colômbia, no Brasil e em tantos outros países.
Desliguem os celulares e aproveitem o filme!
José Neto Pandorgga

08/02/2009

CONCURSOS S.A.

Domingo não é mais dia de missa na América Católica desempregada, é o dia dos concursos. Certa vez fui fazer uma dessas provas, mas quando cheguei ao local, não sabia se ali aconteceria de fato uma prova, se estavam distribuindo dinheiro, ou se acabara de suceder nova aparição da Virgem de Fátima em pleno subúrbio do Rio de Janeiro. O tumulto estava instaurado! Três horas antes do horário marcado, quase todos os guardadores de carro da cidade estavam mapeando e precificando as vagas da rua.
O mercado é vasto e negociado aos gritos, antes daquela necessária concentração pré-prova. Os berros anunciam a venda de caneta, lápis, borracha, escova de dente, enxaguatório bucal, absorvente, pingado de café com leite, cachorro-quente, refrigerante, pão na chapa, água, camiseta, marcador de texto, óculos escuros, prancheta, quentinha, sorvete, pilhas e até orações para N. Sra. Desatadora dos Nós. A rua se torna um palanque dos horrores, alinhavado pelo desespero dos crédulos e sofridos brasileiros. Ainda encontramos pessoas lendo Machado de Assis, manuais, estatutos, biografias, atlas, editoriais, apostilas, outras provas anteriores, tudo na esperança de uma última injeção de conhecimentos.
Não podemos esquecer de que existe uma forte carga dramática no local. Garotas se beijam como se nunca mais fossem se encontrar, pais desejam sorte e dizem que a promessa foi feita para que o filho finalmente comece a trazer dinheiro pra casa, namoradas dormem no ombro do parceiro, companheiros se abraçam intensamente, muitos olhares proféticos: uma novela.
Lá dentro, começam os comentários e as cenas de humor. Uns dizem que vão "gabaritar", enquanto outros dizem que vão desmaiar.
A coisa parece organizada. Tem supervisor com detector de metais, supervisor de área, supervisor de sala, supervisor de corredor, supervisor geral, supervisor dos envelopes de prova, supervisor de banheiro... Ufa! Quantos caciques! Ainda bem que nosso grupo de índios era bem grande. Enfim, toca uma cigarra ao estilo antigo, daquelas que anunciavam a hora do recreio, e mais outro supervisor avisa que – agora sim – podemos iniciar a bendita prova.
Quatro horas mais tarde, a maioria está com “cara de paisagem chuvosa”, na frente do prédio, esperando um conforto alheio!
Foi um domingo divertido! O que mais me fez rir, depois de todo esse circo, foi lembrar do salário oferecido para - nós - os indígenas que alimentam essa indústria dos concursos, cuja maior promessa é uma possível dignidade profissional.
José Neto Pandorgga

07/02/2009

"ILUSÃO-IDIÓTICA"

Para tentarmos compreender um pouquinho do que acontece no mundo, temos de dialogar sobre “referenciais”. A física, cada vez mais próxima das contextualizações destinadas à religião, tem papel surpreendente e crescente em todos esses assuntos.
É fundamental que percebamos a qual “referencial” estamos correlacionando nossa vida, escolhas e resultados.
No início de 2009, o bilionário alemão – Adolf Merckle – cometeu suicídio por ter deixado de ganhar alguns milhões de euros numa movimentação feita a partir de ações da VW. Apesar de ser um freqüentador assíduo da Revista Forbes, sempre na lista dos mais ricos do mundo, seus negócios contraíram dívidas robustas, motivo que o levou ao túmulo.
Qual era o “referencial” desse alemão, sabendo que seu patrimônio particular declarado, girava em torno de 10 bilhões de euros (mais de 30 bilhões de reais)? Ter esse valor é o mesmo que acertar 462 vezes no maior prêmio da história da mega-sena: 65 milhões de reais (out/99).
Noutro caso, observava o comentário do ator/produtor de Hollywood - Tom Cruise - quando dizia que não obteve sucesso financeiro com o terceiro filme da série Missão Impossível, pois, investiu US$150 milhões e recuperou apenas US$130 milhões, dentro dos EUA. Ele não ficou feliz com o que iria receber, porque, seu cachê era o equivalente a 30% do arrecadado. Vale ressaltar que, no resto do mundo, o filme gerou mais US$259 milhões de dólares.
Mais uma vez, entra a célebre questão do “referencial”.
Enquanto isso, pescadores do Ceará conversavam felizes e recompensados por terem conseguido alguns kilos de pescado para o sustento semanal da família, e para venda no mercado da cidade.
Como a vida é intrigante, não? Reflita em qual referencial estão debruçados os seus objetivos.
Penso que o início do ideal seria transpormos os obstáculos das primeiras necessidades, como: moradia própria, alimentação, saúde, estudos, viagens, lazer, segurança, alguma tranqüilidade financeira etc. No entanto, num país tão desigual como o nosso, fica difícil até para conquistarmos esses pontos básicos à sobrevivência.
Apenas para tentarmos ser um pouco felizes, vamos procurar não cair no que sempre intitulei de “ilusão-idiótica”, representada pelas metas desequilibradas. Desta forma, não cometeremos suicídio com bilhões na conta particular, nem nos tornaremos presas fáceis para o mundo, sorrindo da própria falta de estrutura.
Concluo: Se eu ganhar como o Tom Cruise, ficarei feliz!
Calma! Foi só um comentário jocoso para alegrar a tímida audiência!
Agora, também vou refletir sobre minha “ilusão-idiótica” e tentar sorrir por ter uma lata de atum prensado, prontinha para o jantar.
José Neto Pandorgga

10/01/2009

LOBÃO OBEDECE AOS "LOBBYNHOS"

O Brasil é um país muito rico, no entanto, o povo não consegue desfrutar disso por causa dos extorsivos impostos e do acúmulo egoísta em determinadas contas particulares. Nossa hidrelétrica de Itaipu, localizada no rio Paraná, bateu recorde mundial ao gerar mais de 94 milhões de megawatts-hora, em 2008. Nem precisava ser Ministro para saber que com os reservatórios das hidrelétricas cheios, sem risco de desabastecimento, poderíamos naturalmente economizar com a diminuição do gás comprado da Bolívia, já que o contrato permite. Sendo assim, o excelentíssimo ministro de Minas e Energia, na manhã do dia 09 de janeiro, anunciou que nosso país pouparia US$600 milhões de dólares com sua decisão pela redução na compra totalmente desnecessária de gás. E que em maio, talvez, voltássemos a pagar o pacote integral do gás boliviano.
Sem tardar na proteção de sua Bandeira, Evo Morales, Presidente da Bolívia, enviou três ministros para “conversar” com Edison Lobão. Para nosso espanto e decepção, na tarde do mesmo dia 09 de janeiro, Lobão acata os Lobbynhos bolivianos e diz que o Brasil vai, sim, continuar desperdiçando os milhões de dólares. Quando questionado pela mudança repentina, em detrimento do anúncio anterior e da reunião feita com o CMSE (Conselho de Monitoramento do Setor Energético), alegou sabiamente que: "de manhã é de manhã e de tarde é de tarde". Essa é uma resposta ministerial para ser aplaudida de pé! Digna de ser eternizada num azulejo maranhense de sua cidade natal: Mirador. Tornaria-se um evento quase rupestre!
Mas, afinal de contas, seriam apenas US$600 milhões de dólares, uma bobagem para uma nação tão desenvolvida, sem fome, sem analfabetismo, sem corrupção, sem problemas com a saúde, saneamento etc. Até esqueci do lépido recuo e fui pesquisar sobre outros assuntos que nada têm a ver com gás boliviano. Fiquei um pouco mais informado a respeito dos lobos e coiotes, esses mamíferos canídeos que despertam tanta curiosidade em seus movimentos, além de possuírem diferentes nomes, como: Canis familiaris e Canis ladrans. Que curioso, não? Gostei demais desses nomes científicos: familiaris e ladrans! Adoro nomes científicos! Odeio pequenas cifras!
José Neto Pandorgga

09/01/2009

PATOS DE BORRACHA

Quando eu era criança, achava que “patologia” era aquela brincadeira em que pessoas atiram em patos de borracha até acertar um deles. Hoje, percebo que não estava tão errado, depois de ouvir os especialistas e aprender sobre os males aos quais estamos expostos por causa das constantes situações da vida capitalista. Patologia é o ramo da medicina que se ocupa da natureza e das modificações estruturais e/ou funcionais produzidas por doença no organismo. Logo, se o pato de borracha – cada um de nós – sai da linha de avanço, imediatamente tem sua estrutura modificada por influências externas, ou é derrubado com um belo e certeiro tiro. Significa que o pato pode ir ao chão a qualquer momento! Claro, alguém ganha com isso. Nem que seja o dono da fábrica de bichos de pelúcia de Jacarta.
Os médicos alertam sobre o alastramento da fobia financeira e seu enorme grupo de sintomas, como: gastrite, tontura, suor, hipertensão, pânico, tremores, insônia, falta de apetite, dores etc. Já é uma das principais patologias da atualidade. O problema é que o único remédio para sua cura é o dinheiro! Temos aqui mais uma relação direta com o aumento da violência. Como resolver isso? As pessoas que ainda podem contar com algum equilíbrio tentam estudar mais e arriscar algumas moedas nas lotéricas. Mas, e aqueles que já perderam a tal linha de avanço? Aguardam seus fins como se fossem simples patos de borracha. Aguardam o tiro silencioso da modernidade patológica.
Ainda bem que ainda encontro algumas moedas aqui pelo chão. Mas, tá calor hoje ou eu é que estou suando muito? Ando um pouco tonto, acho que devo ter comido alguma coisa estragada. Deixa pra lá, preciso ir à lotérica enquanto estou de férias dos estudos.
José Neto Pandorgga

22/12/2008

TREINAMENTO TÁTICO

Vamos sorrir um pouco, já que o filósofo alemão Nietzsche (1844-1900) nos ensinou a fazê-lo, principalmente, na tragédia. Nesta semana, sabendo que o ator Silvester Stallone visitava o Rio de Janeiro, pensei até que estava participando de uma cena para seu novo filme de ação. Passando com minha moto por uma avenida vigiada por câmeras, radares e policiais – avistei um servidor fardado, com sua proeminente e característica barriga sedentária, já com seu revólver em punho – o que é proibido por lei – usando sua arma para indicar o acostamento para os veículos de duas rodas. Antes de os motociclistas pararem, ele iniciava seu momento de autoridade policial e, com voz gutural, dizia: desembarque do veículo, levante a blusa, dê uma volta em torno do corpo e mantenha as mãos para cima! Caramba! Eu pensei: será uma coreografia para as câmeras da CET-Rio? Será ele um antigo integrante do Village People? Será que o Stallone vai editar imagens com baixa resolução? Ou será um ensaio para o novo filme concorrente ao “Urso de Ouro”? Imediatamente lembrei de Nietzsche e continuei observando a cena. Pararam algumas motos, todas com placa no lugar, condutores com capacete, lâmpadas funcionando, documentação regular e tudo certo! Pensei: Por que eles não fazem esse “tipo” – de atuação – nos locais onde todos sabem que existem centenas de veículos roubados? Nem seria necessário se distanciar tanto das avenidas mais iluminadas. Concordo que eles precisem, de alguma forma, justificar seus salários, já que o “pague e pesque” não está rendendo tantas carpas africanas para a imprensa, mas gostaria que eles também exercessem essa “potência” em áreas de menor vigilância.
Quando ele disse “levante a blusa”, recordei das milhares de cenas registradas, à luz do dia, com membros do tráfico exibindo, sem timidez, seus fuzis russos AK-47, escopetas calibre 12, pistolas austríacas Glock, submetralhadoras israelenses Uzi, metralhadoras Cetme de 21 disparos por segundo, Snipers suíços, lançadores antiaéreos, granadas etc. etc. etc. Por que não prendem sumariamente esses top models do segmento bélico que desfilam nas passarelas dos morros e comunidades? Segundo a lei que contaram para os dedicados pagadores de impostos, quem for flagrado com arma sem registro, será preso em regime fechado, com pena de 2 a 6 anos, sem fiança, com pagamento de multa. Porém, pode ser que o armamento ostentado – nos pontos de venda de drogas – esteja perfeitamente registrado e, talvez, eu esteja enganado! Para quem, então, seria essa lei? Apesar de não ser Secretário de Segurança Pública, posso nitidamente perceber que a abordagem de alguns policiais está muito bem ensaiada, embora, geograficamente equivocada, assim como, negligentes estão seus preparos físico, cultural e psicológico.
Espera aí! Já volto! Parece que mais uma velhinha de 83 anos vai apresentar – com exclusividade – sua tática secreta para ter conseguido filmar um lampejo de 33 horas de imagens do tráfico, no Fantástico. O ator Silvester Stallone vai assistir a tudo, diretamente dos estúdios, para aprender mais sobre a técnica utilizada na iluminação noturna, nos ângulos astutos e, principalmente, conhecer detalhes sobre os sofisticados equipamentos adquiridos em 36 suaves prestações das Casas Bahia!
José Neto Pandorgga

16/12/2008

O DESABROCHAR DE UMA TORRE

120 anos após sua inauguração, no dia 31 de março de 1889, a torre mais visitada do mundo vai sofrer modificações. Construída por Gustave Eiffel (1832-1923) para comemoração do centenário da Revolução Francesa, o monumento recebe atualmente 7 milhões de turistas por ano e já foi comparada à Pirâmide de Quéops, no Egito. Entretanto, seu glamour que faz parte da identidade da cidade Luz, retribui elegância aos apaixonados visitantes, despreocupado com tais especulações. Localizada no Campo de Marte na capital francesa, hoje, está longe da disputa nervosa entre as mais altas edificações do mundo moderno, liderada pelo Burj Dubai e seus incompletos 700 metros de altura. Em 1930 já fora desbancada pelo prédio da Chrysler, de Nova York.
Além do atrativo natural criado pelos filmes, a dama de aço ainda divide com a cidade de Paris, convites cheios de promessas e inesquecíveis lembranças.
A Torre tem 321m de altura e 1652 degraus. Seu peso aproximado é de 10 mil toneladas. O intrigante é que foi feita em blocos para que pudesse ser desconstruída logo após a comemoração. Contudo, seus benefícios meteorológicos, aerodinâmicos e estéticos a tornaram um dos maiores símbolos da Europa.
Em 2009, sua terceira e mais alta plataforma panorâmica, finalmente vai receber pétalas de aço, como se a imagem desabrochasse no céu, aumentando a área de acesso ao público de 280 para 580 metros quadrados. A torre possui três andares. O primeiro a 57 metros do solo, suporta a presença de 3.000 pessoas ao mesmo tempo. O segundo andar fica a 115 metros do solo, suportando mais 1.600 pessoas, enquanto seu terceiro andar, a 276 metros acima do solo, que atualmente suporta 400 pessoas, deverá suportar mil pessoas ao mesmo tempo, após sua reforma.
Dizem que o passeio à Torre oferece uma culinária exemplar nos restaurantes localizados em seu interior, vistas espetaculares em diferenciados níveis, muitas lojas de griffe, vinhos que estão entre os melhores do mundo, além de outras possibilidades que envolvem o momento. Obviamente, quem for conferir tudo isso deve preparar-se para despender uma generosa quantia em Euros, moeda que vale mais do que o triplo da nossa. Não havendo problemas quanto a isso, bon voyage!
José Neto Pandorgga

13/12/2008

JOSEPH LEVITCH OU JEROME

Tudo o que for escrito a respeito desse artista, será inconsistente, pois, estamos à espera da desejada autobiografia encomendada em 1996, ainda não concluída.
Ele nasceu em Newark, no dia 16 de março de 1926, New Jersey, EUA. Entretanto, há controvérsia quanto a seu nome de registro ser Joseph ou Jerome.
Extraordinário escritor, ator, comediante, cantor, diretor, produtor, com uma história marcante, também voltada para causas beneficentes. Em apenas uma única aparição, ainda consegue arrecadar quase 70 milhões de dólares para a Associação de Distrofia Muscular dos Estados Unidos.
Descendente de judeus ortodoxos, estreou aos 5 anos de idade interagindo em skets com seu pai comediante e sua mãe pianista.
Um dos maiores nomes de todos os tempos que, merecidamente, faz parte da seleta lista dos dez melhores artistas de Hollywood, ao lado de Walt Disney. Muitos tentam provocar comparações, ensaiam suas sacadas geniais, mas estão distantes desse talento eternizado.
As pessoas choravam e riam num mesmo filme. Hoje, apenas comem pipocas, mordem bananas cristalizadas e tomam refrigerantes, assistindo aos atuais candidatos a comediantes, como Jim Carrey e tantos outros purgantes.
Em 1946, conheceu Dino Crocetti, ex-boxeador, ex-frentista, ex-crupiê que queria ser cantor e mais tarde se transformara no lendário galã Dean Martin (1917-1995). A partir de então, surgiu a dupla mais rentável do show business americano, com 16 filmes e muitas trapalhadas maravilhosas. A parceria terminou oficialmente em julho de 1956, na boate Copacabana, em Nova York. Depois de anos de separação, fato envolto em inúmeras interpretações, um amigo em comum – Frank Sinatra (1915-1998) – teve a iniciativa de promover o reencontro durante um show de TV. Foi quando, totalmente surpreso e sem saber o que dizer, superou anos de ressentimento com um largo sorriso e a frase: “Oi, Dean. Você está trabalhando?”
Há rumores de que ele receberá um prêmio no Kodak Theather, na entrega do Oscar 2009, em Los Angeles. Seria ótimo, pois, ele sempre foi muito mais celebrado pela França do que pelo seu próprio país.
Foram mais de 60 filmes, programas de TV e importantes títulos, como o “Leão de Ouro” do Festival de Veneza em 1999, sem esquecer da indicação ao Nobel da Paz, pelos mais de 50 anos que angaria fundos para causas beneficentes.
Ele já foi contador de piadas em Atlantic City, professor de Steven Spielberg e George Lucas na Universidade de Cinema da Califórnia, deu nome a 750 salas de projeção, chegou a ter 24 carros e 88 smokings diferentes ao mesmo tempo. Casou-se duas vezes, tem 5 filhos biológicos e outros adotados, além de muitas histórias que ainda estão para ser reveladas.
Um de seus maiores sucessos foi o filme "O Professor Aloprado", de 1963, refilmado em 1996 com Eddie Murphy, e atual projeto para os refletores da Broadway.
Quanto ao quesito saúde, não esteve com muita sorte. Ainda nos anos 70, durante a filmagem de “Dupla em Sinuca”, ele caiu de uma grua e fraturou a coluna, trazendo conseqüências definitivas para sua carreira e muitos efeitos colaterais, incluindo depressão e obesidade.
Em 1980, morre seu pai e sua primeira esposa Patty Palmer entra com uma ação de divórcio, depois de 36 anos de casados. Em 1981, voltou a filmar “Um Trapalhão Mandando Brasa”, mas no dia da estréia sofreu um ataque cardíaco e recebeu três pontes de safena. Recuperou-se com os cuidados daquela que seria sua futura esposa, a bailarina de Vegas, Sandra Pitnick.
Em 1983 dividiu o set com Robert De Niro em “O Rei da Comédia”, entretanto, por questões políticas, não tivemos o privilégio de conferir essa produção realizada em terras francesas.
Entre 1987 e 1990, imprimiu sua brilhante e pouco explorada carga dramática no seriado americano Wiseguy, conhecido no Brasil com o título de “O Homem da Máfia”.
Em 1992 descobriu um câncer de próstata antes de quase morrer de meningite em 1999. Infelizmente, suas maiores batalhas são contra o implacável tempo. Atualmente, ele sofre com dores crônicas nas costas, diabetes, uma fibrose pulmonar descoberta em 2001 e problemas causados pelas altas doses de esteróides.
Contudo, não quero terminar minhas palavras com a parte triste da vida desse ídolo planetário que tantas vezes iluminou minha “Sessão da Tarde”. Sua arte e comicidade fazem emergir sentimentos quase extintos. Ele conseguia espelhar a pureza do espectador que, por sua vez, identificado, torcia muito para que sua personagem conseguisse um final feliz.
Sinto por não ter tido a raríssima oportunidade de conviver com ele, nem mesmo ter condições financeiras para assistir a shows em hotéis e cassinos de Las Vegas, presente habitat, enquanto showman. Mas, se a empatia de um admirador puder relembrar – por merecimento – o nome de alguém que ainda alegra a humanidade, desde o pós-guerra, sem dúvida estarei pronto para registrar muitas páginas com lembranças do inesquecível Jerry Lewis.
José Neto Pandorgga

10/12/2008

ROMANÉE-CONTI

Vamos entender um pouco sobre esse vinho que, antes de tudo, é um símbolo de status e diferenciação.
O nome vem do vinhedo francês, localizado na região da Borgonha, comprado em 1760, pelo príncipe Louis François de Bourbon-Conti.
Segundo os enólogos, trata-se de uma bebida muito especial que, além de decolar o prestígio de raríssimas degustações, também movimenta índices na Bolsa Internacional de Valores, números fomentados pelo americano Robert Parker que cuida das recomendações do setor, através do seu “programa dos cem pontos”. Apesar de todo frisson em torno das limitadas 5.500 garrafas anuais, escassez que também serve de alavanca para fama, Aubert de Villaine, responsável pela vinícola, desaprova os preços exorbitantes.
Romanée-Conti possui a máxima certificação francesa que o classifica como um Grand Cru, garantindo sua origem controlada. Para se conseguir uma única garrafa a partir da fonte, é preciso comprar a caixa com 12 excelentes rótulos em que, apenas um, trará a procurada assinatura. A uva que produz esse objeto do desejo é do tipo pinot noir, plantada em Vosne-Romanée na Côte de Nuits, proveniente de um autêntico terroir, pequeno solo personificado pela natureza, contendo características específicas, como temperatura, inclinação e drenagem perfeitas para tal plantio. A colheita é tardia, absolutamente manual, transportada em caixas que não passam da altura de um único cacho para que nenhuma uva fique amassada. Sua finalização requer um mês de fermentação e mais 18 meses para o mínimo envelhecimento. Contudo, rezam as páginas invisíveis do terceiro livro de Baco, que só a partir dos 18 anos as garrafas atingem maturidade para serem celebradas, como se fossem belas ninfas mitológicas do imaginário grego.
O que eu acho mais engraçado são os termos declamados durante a apreciação de rótulos desconhecidos. Dentre tantos, dizem que o vinho oferece toques de menta, promove o aveludamento da língua, evoca chocolate, traz a complexidade, exala carvalho, presença de sais de ferro, frutas vermelhas, nuances de sedução, tanino mordente, status terral, paladar mineral etc. etc. etc. Caramba! Haja paladar animal, vegetal e até mineral!
Para quem não entende o porquê das cifras aumentarem a mítica em torno desse vinho, deixo um pequeno exemplo para pensarmos sobre o assunto, pelo menos, por alguns minutos. Pasmem, porém, uma única garrafa da safra de 1985, chegou a ser vendida por 23 mil euros – mais de 70 mil reais –, em Nova York. Mas, como seus apreciadores não ficam lambendo moedas, o comprador aproveitou para levar 6 garrafas de uma vez, já que o preço estava bom! Como assim, bom?
Aqui no Brasil, poucas pessoas têm acesso ao néctar de Bourgogne. Dois nomes lembrados pelo próprio Aubert de Villaine, durante entrevista à VEJA, foram, Paulo Maluf, seguido da pergunta: “Ele está preso, não?”, e o nome do connaisseur de Caetés, presidente Lula, diligente consumidor. Quem diria! Das cabaças de Garanhuns para abundantes rolhas de Romanée-Conti que, em jantares brasilienses, acompanhadas de um bom lagostim, fazem o felizardo "pagar" 12 mil reais por cada taça. Um brinde ao presidente! Um brinde à França! Um brinde a Caetés!
José Neto Pandorgga

09/12/2008

CAUSA E EFEITO

As empresas estão jogando as pessoas nas ruas, literalmente. Para proteger o capital e diminuir a folha de pagamentos vale tudo. São pais de família, mães solteiras, cidadãos esperançosos que agora têm seus projetos abortados como filhos que nem deveriam ter tido o direito de nascer. Contudo, certamente, trarão um resultado prático para o cotidiano de cada cidade, no mundo.
De repente, ao caminhar pelas calçadas, temos a sensação de que o espaço está menor, de que o barulho aumentou. Parece que mais pessoas estão gritando, tentando vender qualquer coisa, desesperadamente. O pior é que não se trata de uma sensação, é a triste realidade.
Será que o Estado terá força policial suficiente para reprimir o número de ambulantes? Acredito que já estejam providenciando mais cassetetes, munição e microônibus com grades nas janelas. Tudo bem, eles dizem! Quanto aos vendedores de rua, dá até pra “trocar uma idéia”. Mas, e quanto àqueles que se sentem punidos pela longa injustiça da péssima distribuição de renda? Enquanto alguns casais combinam fazer salgadinhos para vender, outros vizinhos organizam coisas mais indigestas, como assalto a Banco, venda de drogas, invasão de prédios em bairros nobres, explosão de delegacias, aquisição de pistolas semi-automáticas "ponto 40" que oferecem, por vez, 12 letais “empadinhas de pólvora”, entre outros “redirecionamentos para o capital existente”. Que frase bonita, não? Típica de um bom sofista da contemporaneidade! Bonita, porém, desgastada diariamente nos meios de comunicação de massa. A questão é que os criminosos estão aprendendo essas frases repletas de sentido figurado, e tentam recuperar o sentido prático de cada uma delas.
Sem querer ampliar o infinito debate filosófico já existente, pergunto: Será que a maioria dos criminosos não gostaria de poder colocar a comida no prato de seus familiares, pagar em dia o colégio das crianças, entrar e sair de casa com a cabeça erguida pela dignidade, não viver acuado pelas sirenes urbanas, entre tantas outras coisas legais, nos dois sentidos?
Será que ninguém quer perceber o estridente apito dessa enorme panela de pressão que acaba de passar para o fogo alto?
O fato é que não sabemos mais quem está vendendo o quê, por qual motivo, com qual finalidade. Sabemos que, mais uma vez, vidas estão nessa roleta-russa do descontrole que tem como causa, o capitalismo. O problema é que ninguém está mensurando o que ele trará como efeito!
José Neto Pandorgga

04/12/2008

“CEBOLINHA” DECLARA EXZPANSXÃO

As cicatrizes abertas no inesquecível dia 11 de setembro de 2001, seguem com a crise da vingança, encharcando o solo afegão com sangue, abrindo os cofres empoeirados da aristocracia. Bush, como recompensa desafiadora, leva para seu descanso pós-governo um mimo frasal de Ayman Al Zawahri (pupilo de Osama) “mande todo o exército para o Paquistão, que eu o mandarei para o inferno”. Contudo, talvez não seja possível agora, pois o dinheiro está sendo usado para resgatar os altos capitalistas e seus tridentes de ouro. Mas, essa brincadeira de quem pode mais acaba invadindo outros quintais. As Bolsas de Valores ao redor do mundo – de out/2007 a nov/2008 – já perderam mais de US$30 trilhões de dólares.
Quanto ao Brasil, dizem que uma opinião mais esclarecida, a respeito do nosso quixotesco presidente Lula, está nas páginas do jornal francês Le Monde. Ainda bem que ele não o saberia ler. Para aumentar a bola de fumaça ninja, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, mais conhecido como “Cebolinha”, anuncia nítida expansão. Claro! Ele só não disse expansão de quê! Será que ele imagina o que seria sustentar uma família com R$415 reais por mês? Tá difícil conter a tal “marolinha”, sem falar no desemprego e no avanço da barbárie que antes era um privilégio apenas urbano.
Dizem que mentira boa é a mentira confirmada! Durante décadas, as principais instituições mundiais, aliadas aos artistas internacionais, às ONGs, aos fotógrafos com imagens da miséria humana etc., clamam por uma quantia de US$30 bilhões anuais para erradicar - do planeta - a morte por desnutrição. Entretanto, esse dinheiro nunca apareceu para poupar a vida de cerca de 1 bilhão de pessoas que passam fome, segundo o senegalês diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), Jacques Diouf. Mas, de uma hora pra outra, só a Europa injetou mais de US$2 trilhões de dólares, com mais US$1 trilhão que chegou dos EUA, surpresinhas que obtiveram resultados efêmeros e anódinos. Como nem tudo são palavras e demagogia, ainda bem que veio uma ajuda substancial do representante dos preocupados membros do Vaticano. Acabamos de receber mais uma mensagem enviada especialmente pelo querido Papa Bento XVI. É compreensível que a Igreja Católica não envie ajuda financeira para a fome mundial, pois, afinal de contas, é uma Instituição muito pobrezinha. Vamos aproveitar e dar um obrigado ao Papa! Obrigado, Papa! Um obrigado ao Bush! Obrigado, Bush! Um obrigado ao Lula! Obrigado, Lula! E mais um obrigado ao Cebolinha! Obrigado, Cebolinha!
José Neto Pandorgga

02/12/2008

1962 - SILÊNCIO EM BRENTWOOD

Tudo com o que as mulheres sonham, e o que os homens pensam que gostariam de ter, esteve presente em uma das vidas mais tristes do século XX. Tinha um nome comum, Norma Jean Baker, e ainda é a loira mais famosa de todos os tempos, embora fosse morena, com apenas 1,67m de altura. Nasceu em Los Angeles, Califórnia, e teve sua infância entre orfanatos e lares adotivos. A maneira que encontrou para escapar das necessidades foi seu primeiro casamento com apenas 16 anos de idade. Logo em seguida, seus laços afetivos fizeram com que Hollywood a recebesse com um felpudo tapete encarnado rumo à carreira internacional posteriormente merecida. A pureza no olhar parecia não entender o quanto mexia com o imaginário masculino. Fez fortuna, gostava de diamantes, homens e champagne. Contudo, não conseguia espantar a tristeza permanente. Trocou de nome, cor dos cabelos, várias vezes de parceiro, fez plástica no nariz, mas o pedido de socorro não abandonava seu semblante. Suas relações pessoais transitaram pelos corredores da política internacional, pelos refletores do cinema, pelos hangares da CIA, pelas lentes dos fotógrafos, pelos olhares ávidos dos espectadores, até iniciar um triângulo perigoso entre um dos representantes da máfia – Sam Giancana – e o 35˚ presidente dos EUA, John Fitzgerald Kennedy, assassinado em novembro de 1963, um ano depois da morte de sua mais popular e cobiçada amante.
Seu nome ficou gravado na história como Marilyn Monroe (1926-1962) que depois de vários filmes, capas da Playboy, prêmios importantes, péssimos investimentos, publicações intrigadas e romances, foi encontrada nua e morta, em sua casa de Brentwood, supostamente por causa de volumosa ingestão de calmantes. Curiosidades à parte, alguns objetos que poderiam jogar um pouco de luz no caso, simplesmente desapareceram.
Para ficarmos com a parte boa da história, Marilyn foi a própria bandeira do glamour, da feminilidade, da beleza que será eternamente lembrada, tanto nos palácios que ressoam a canção-homenagem feita por Elton John (Candle in the wind), quanto pelos golpes de ar que saem dos buracos imundos do terceiro mundo.
José Neto Pandorgga

26/11/2008

VONTADE DE SER ARTISTA

Ele pintava aquarelas, era um exagerado comprador de obras de arte e queria ser arquiteto. Convivia com "poetas", foi recusado pela Academia de Artes de Viena e tinha o desejo de escrever óperas.
Seu maior admirado era Wagner, com o qual se comoveu ao assistir à “Rienzi”, ponto inicial para o projeto de se tornar "porta-voz" do povo. O arquiteto interrompido, de próprio punho, criou uma efígie, uniformes, bandeiras, estandartes; e sua carreira já o colocara como protagonista do poder instituído pela chancelaria do país onde fez história. Com sua forma absolutista de pensar, decretou em 30 de janeiro de 1933, que toda arte que não servisse a seus propósitos políticos ou ideológicos, seria classificada como depravação intelectual ou “arte degenerada”.
Logo chegaram as intencionais comparações com os ideais da beleza grega e a proposta de “higienização”, baseada na hereditariedade. Com isso, ele elaborou projeto para exterminar e confiscar os bens de 11 milhões de judeus.
Sua outra façanha artística foi explorar a onipresença oferecida pelo Cinema. Passou a exibir, a partir de 1937, um filme criado por membros do partido nacional socialista e, obviamente, pelos médicos que engendravam novas proporções para a morte.
Seu inflado ego, em setembro de 1939, ordenou ataque bélico à Polônia dando início à Segunda Guerra Mundial, quando seus seguidores declaravam que a maior terapia eram os assassinatos livres e ininterruptos.
No dia 23 de junho de 1940, ele visita uma Paris exaurida por combate, e percorre, logo cedo, às 6h da manhã, renomados pontos turísticos, pensando se iria destruí-la ou não. Entretanto, resolveu fazer novos projetos para a capital francesa.
Apesar de toda violência da guerra, enviou artistas para o “front” para retratarem a poesia que havia na destruição. Não satisfeito, oferecia recompensas a especialistas que pudessem “profissionalizar” os fornos que baforavam o famigerado Zyclon B – monóxido de carbono –, evitando assim, o desperdício de munição com os “inferiores”.
Suas visionárias deturpações seguiam velozes com os apoios de Japão e Itália, quando formaram o "Eixo". Dentre tantas, determinou a destruição de Moscou que seria reduzida a uma represa. Quando já se sentia dominador do planeta, no final de 1941, os EUA entraram na guerra; em 42, os "Aliados" (China, França, Grã-Bretanha, URSS e EUA) despejaram milhares de bombas inglesas na cidade de Colônia; em 43 já eram 90 mil prisioneiros alemães, e seu projeto estava em via de ser arruinado.
Em 30 de abril, refugiado a mais de 3 meses num bunker, o bastardo austríaco Adolf Hitler (1889-1945), despediu-se dos poucos que o acompanharam até lá, e, logo depois do almoço, às 15h30min, trancou-se em seus aposentos, assim como fez sua recente esposa Eva Braun. Enquanto as pessoas dançavam e ouviam música, chegara o estampido do tiro craniano que silenciou uma das mais monstruosas personalidades da Alemanha. Após o suicídio, os soldados ainda seguindo suas ordens, incineraram os corpos - com 180 litros de combustível - para que não fossem encontrados e expostos como troféus de guerra.
O relevante para nossa pacífica atualidade é refletirmos a respeito daqueles que se dizem benfeitores do povo, sensíveis às questões da coletividade, defensores de causas que dependem do aval de cada um de nós.
Naquela época, foi um cabo do exército austríaco que obteve poder e conseguiu apoio para o absurdo que inclui 6 milhões de vidas judaicas. Quais seriam os manipuladores desta geração?
Os salvadores sempre contarão com nossa omissão, com nosso voto, com nossa alienação, com nosso não pensar. Agora, imaginem se Hitler não tivesse vontade de ser artista!
José Neto Pandorgga

21/11/2008

FORA DA ORDEM

Disse o Nobel de literatura, José Saramago, “Não sou pessimista, o mundo que é péssimo, e só os milionários discordam”.
Várias coisas me assustam, de maneira crescente. A cada dia, mais moradores se tornam “de rua”, transformando calçadas em quartos, salas e banheiros, perdidos recentemente por um ou outro infortúnio.
Fala-se muito em benefícios de inúmeras taxas, sem resultados práticos. Dizem que estamos no menor nível de desemprego dos últimos anos. Contudo, muitas pessoas se acumulam em frente às latas de lixo na esperança de encontrar algo pra comer.
Quanto à venda de tranquilizantes, calmantes, ansiolíticos e antidepressivos, essa sim, aumentou demasiadamente, numa mistura entre decepção, frustração e falta de perspectiva.
"Algo parece estar fora da ordem". Fico pensando no inadiável e já iniciado efeito disso tudo.
A renda mundial que deveria oferecer dignidade a 6,5 bilhões de pessoas, é dividida em 10 partes; 5 bilhões de pessoas se viram para sobreviver com apenas 2 partes desse bolo; enquanto que as outras 8 partes restantes, ficam para poucos que acumulam uma injusta e mortal fortuna.
Apesar da exposição das vísceras da necessidade, o derramamento de dinheiro não cessa. Pasmem, pois, segundo o site "Transparência Brasil", o minuto "trabalhado" de cada parlamentar brasileiro custa R$11.545,00 (onze mil, quinhentos e quarenta e cinco reais) para os contribuintes! Sim, o minuto!
Será justo que mero administrador de pensão ganhe mais que o estudado governante de uma nação? Um parlamentar da Espanha custa 850 mil reais por ano, para os contribuintes; enquanto que um parlamentar brasileiro não sai por menos de 10 milhões e duzentos mil reais, para o mesmo período. Quem achar que a Espanha não é um bom comparativo - quiséramos nós, desfrutar da organização e respeito oferecidos em cidades como Madrid ou Barcelona - comparem então com o custo anual de um parlamentar da França: 2 milhões e oitocentos mil reais. Neste caso, os nossos preparadíssimos servidores ganham quase 5 vezes mais. Acho até que vou abrir uma enquete para descobrir qual Universidade formou nossos funcionários de Brasília, incluindo, é claro, nosso presidente. Será que foi Harvard, Stanford, Cambridge, Oxford? Pode ser que eu me surpreenda, pois, de acordo com a resposta, quem sabe, seus gastos estejam justos e compatíveis.
Talvez, eu precise mesmo dar uma força à nação, fazendo um empréstimo para aproveitar o pequeno juro do cheque especial, ou, quem sabe, colocar minha assinatura num rápido contrato da casa própria.
Mas, os absurdos não param... É um descobrir “ad infinitum” que mais parece com os anúncios sobre a camada do pré-sal. Agora, o petróleo que estava escondido começa a aparecer, enquanto que os carros elétricos, nada poluentes, já custam apenas o dobro do valor de um carro popular. Daqui a pouco vamos encontrar combustível fóssil em feira livre, junto a bonitas palmas de banana-da-terra e garrafadas do Pará.
Como tudo nesse imenso campo elétrico, chamado planeta, está sob a lei de causa e efeito, precisamos atentar para esses jogos dos quais participamos passivamente, e que estão cada vez mais mortais, em todos os sentidos.

José Neto Pandorgga

25/10/2008

BLINDNESS

"Ensaio sobre a cegueira" é um belíssimo desconforto analítico, uma cesta de especiarias humanas reveladas em "situações limite", uma explosão - não iluminada - dentro de estranhas reflexões.
Julianne Moore está elegantemente indispensável e nos presenteia com a generosidade da qual o filme necessita, principal antídoto para tal "cegueira" coletiva.
Já o ator mexicano Gael Garcia Bernal e sua atuação talentosamente debochada e repugnante, não foi feliz ao misturar a deficiência visual de Stevie Wonder com a trama, e seu "caco" de humor negro onerou a produção em 50 mil dólares pela liberação da canção.
O texto original, assinado pelo habitante das Ilhas Canárias e Nobel de literatura José Saramago, pretende revelar a abstração individualista, doença da atualidade.
O filme trabalha com emoções e valores de sabor e cheiro muito fortes para estarem ao mesmo tempo, no mesmo lugar. A tela oferece um possível espelhamento futuro, além de pensamentos a respeito de dignidade, barbárie, sofrimento, amor, oportunismo, luxúria, miséria, compreensão, necessidade, suicídio, frieza, caos, violência, depravação e instinto.
Em racionados e agradáveis momentos, encontramos o valor das coisas que não mais valorizamos, como a benevolência da chuva, notas que escapam de uma escola de música, a proteção na voz de um amigo e o encontro pela simples celebração do encontro.
De alguma forma, o diretor brasileiro Fernando Meirelles nos auxilia a tentar o mergulho nesse insólito auto-retrato, onde a conscientização está presente em tempo integral.
Se a idéia era fazer pensar, certamente, essa produção que uniu Canadá, Japão e Brasil, obteve sucesso, mesmo depois de tantos cortes e mudanças "sugeridos" pela Miramax de Nova York.
Dói um pouco, mas se - a partir de agora - conseguirmos praticar a última cena do filme, teremos um encontro com nós mesmos.
José Neto Pandorgga

24/09/2008

MACHADO DE ASSIS (1839-1908)

Notável brasileiro que nasceu e morreu no Rio de Janeiro, no entanto, algumas pessoas ainda pensam que foi um legítimo português.
Nascido no morro do Livramento, região portuária, teve uma infância doída, com duas grandes provações logo cedo. Aos seis anos de idade perdeu sua única irmã, e, quatro anos mais tarde, sua mãe também veio a falecer. Mestiço, descendente de negro alforriado, gago, pobre, epilético, dormia sobre folhas de jornal no chão de um cortiço e recebia comida da generosa vizinhança. Sua perspectiva não era das mais privilegiadas.
Com uma vontade enorme de prover seu sustento e aprender o que as letras oferecem, passou a vender doces na porta de uma escola, onde ficou conhecido como: Machadinho.
Alfabetizou-se subindo em um caixote, pelo lado de fora da sala de aula, até que uma baronesa do Cosme Velho soube de tal história e ofereceu-lhe morada em troca de serviços gerais. Preocupada com sua idade avançada, arranjou emprego para o menino que agora era funcionário de uma gráfica.
Diariamente, Machadinho sumia por uma ou duas horas no meio do expediente. Seu colega já intrigado pelo acúmulo de serviços, resolveu acompanhar as fugidas do novato para acabar com tal mistério. Depois de detalhada pesquisa no ambiente, encontra Machadinho no banheiro, trancado no reservado, tampa do vaso fechada, sentado em meio a livros, deleitando-se com as páginas vagarosamente descobertas. Foi demitido no mesmo dia.
A baronesa, sabendo a causa da demissão de seu protegido, indignada, contratou os melhores professores particulares para o ávido leitor em questão.
Desde então, todos sabem sobre esse expoente da literatura, conhecida referência internacional, artista de estilística incomparável, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, presidente da mesma até sua morte em 1908, quando tal função foi transferida para seu amigo Rui Barbosa.
Teve um casamento feliz e sem filhos com Carolina Xavier, uma portuguesa de família preconceituosa, fina e culta; dez anos mais velha, que gostava de ler grandes filósofos, como Schopenhauer. Sua carreira intelectual foi providencialmente amparada pelo cargo conquistado no funcionalismo público. Enfim, observamos uma gloriosa história que partiu do chão de um cortiço, passou pela cadeira 23 da ABL e ganhou os mais célebres gabinetes de leitura e literatura mundiais. Nosso “Machadinho” brasileiro. Desencantado com a humanidade como um Joaquim Maria, pertinaz como um Machado que foi Assis.
José Neto Pandorgga

11/09/2008

"NÃO MAIS QUE DE REPENTE"

"Da calma fez-se o vento que dos olhos desfez a última chama". As pessoas partem sem despedidas. A avaliação vem imediatamente com a perda, e a poesia se transforma em ausência. Um amigo, sempre com Vinícius (1913-1980), recitava para alegrar quem estivesse presente, falando alto para distribuir sua necessária irreverência! Quão marcante pode ser uma lembrança! Fico pensando que a falta de um longo convívio poderia dar carona a minha própria vida! Ah, a vida! Quanta fragilidade! Por isso, sabemos que da flor ficam só o perfume e a alegria dos olhos de quem a recebe. "De repente, não mais que de repente, faz-se do amigo próximo, o distante"; a morte nos deixa o castigo e também nos leva à próxima jornada, ao ainda desconhecido.
José Neto Pandorgga

28/08/2008

O BLINDADO DE MENELAU

Em pleno século da tecnologia, da inteligência artificial, dos mecanismos eletrônicos de controle, da absoluta vigilância do Estado, das lentes poderosas, dos satélites-espiões, das câmeras onipresentes, das telas que se alimentam com imagens em tempo real, dos observatórios governamentais, das armas não-letais e de todo o resto que nem ficamos sabendo a respeito do acompanhamento de nossas vidas; o Rio de Janeiro expõe com orgulho, o oneroso e blindado representante da falência do Estado, chamado: CAVEIRÃO. Aliás, o "novo" Caveirão.
A sensação que tenho é de que investimos mais de dois milhões de dólares na compra de chinelos maiores para combater a ira de alguns filhotes de hotweillers. Uma tentativa de adiar soluções e redirecionar as atenções, porque essa "caixa de aço ambulante" está longe de ser eficaz, assim como, está longe de atuar nos lugares onde reside a verdadeira causa do problema.
Eu estou em dia com minhas lembranças...
Lembrei de um antigo desenho animado, onde o personagem explodia todo o açude para pegar um único peixe, dando às costas para o irrecuperável.
Mas, me deixa lembrar novamente... Foram mais dois milhões de dólares, desta vez!!!
O tal representante blindado veio com maca, ar-condicionado, capacidade para 20 pessoas, pára-choque que consegue derrubar blocos de cimento etc. Mas, onde fica o serviço anterior à ação, o da Inteligência? Segundo a SWAT (Special Weapons And Tactics) dos EUA, o Brasil oferece ótimos resultados na localização de qualquer tipo de elemento, devido às péssimas condições financeiras, leia-se: recompensas. Mas, a SWAT deve estar enganada. Acho até que a população deveria se cotizar para instalar um frigobar em cada blindado. Que tal?
Hoje em dia, qualquer dona de casa mais esclarecida, quando quer ir a determinado supermercado, consulta antes o “Google Maps” e já sai com a informação refinada. Será que nossos combatentes não têm acesso a nenhum tipo desses serviços? Talvez eu esteja sendo injusto. Afinal de contas, não houve qualquer evolução, desde 1300 a.C., capaz de melhorar estratégias, além da conhecida operação "Cavalo de Tróia". Falta só a adaptação para rodas de madeira revestidas com borracha, porque, quando os bandidos furam os pneus do "Blindado de Menelau", o intento fica igualmente imobilizado no destino.

Enquanto o primeiro mundo está desenvolvendo robôs que operam com redes neurais vivas e orgânicas, nós estamos aumentando a espessura das barreiras que nos afastam das "desinteressantes" soluções inteligentes.
José Neto Pandorgga

03/07/2008

GRILOS NA POLÍTICA

Acreditem que os grilos, insetos de coloração parda, com longas antenas, apropriados para o salto, estão cada vez mais presentes na política. As características são facilmente reconhecíveis. São indivíduos não transparentes, astutos para oportunidades, e que de repente passam a se locomover em saltos inacreditáveis. A diferença básica é que eles não emitem aquele som dos verdadeiros grilos.
Antigamente, criavam generosas escrituras de terras e as colocavam dentro de uma caixa com nossos amigos insetos que, habitando aquele ambiente sem alimentos e sem a mínima liberdade para necessidades fisiológicas, começavam a roer e a marcar os documentos, fornecendo aparência antiga e verossímil. Devido a este importante auxílio, a "altruísta" técnica passou a se chamar de "Grilagem": apropriação indevida de terras, através de documentos forjados. O pior não é que os políticos queiram transferir a culpa para os pobres e trabalhadores grilos, mas, sim, os juízes acreditarem nisso.
Sem querer me estender muito para não perder o bom humor com mais informações, na CPI da Grilagem, feita pelo Governo Federal, foi constatado 100 milhões de hectares de terra envolvidos com tais insetos. Aliás, com tais políticos que saltam sem fazer barulho. Mas, o Governo está se empenhando nas ramificações deste assunto, que são: ampliação de bens, venda ilegal de madeira, especulação imobiliária, morte, apropriação de terras com recursos naturais adequados ao biocombustível, lavagem de dinheiro etc. Soube que estão providenciando coletes do INCRA com a inscrição MP-422 para uso obrigatório de todos os grilos da função. Se forem criar um monumento no Planalto para lembrar do assunto, sugiro um painel de fotografias, onde a foto inaugural pode ser a do saudoso Chico Mendes (1944-1988).
José Neto Pandorgga

29/01/2008

FUNK BONN

Lamentável ter a sensação de estarmos esquecidos no cofo do terceiro mundo, enfrentando problemas parecidos com os de Cali, na Colômbia.
Eu, sempre me fazendo perguntas.
Será que os anêmicos do Zaire são desatentos, ou os deixaram com tanta fome a ponto de não mais poderem opinar? Será que a nossa alegria é a da conquista ou a dos ignorantes?
Através de pequena reflexão, percebo que não estamos construindo nada para os vindouros. Certa vez perguntei a algumas pessoas sobre a cidade de Bonn, e ninguém sabia nada a respeito deste requintado celeiro cultural e tecnológico, sede de órgãos da ONU e, entre outros marcos históricos, ex-capital da Alemanha.
Mais uma vez me fiz outras perguntas.
Será que alguém de Bonn, saberia algo sobre o Brasil? Afinal de contas, de onde vem esse nosso descaso comparativo?
Bonn é berço natal de Ludwig Van Beethoven (1770-1827). O Brasil ainda nem tem a conscientização dos políticos em relação a nada que não seja o fomento de seus cofres particulares. Existe em Bonn, programação – diária – de ópera, uma das melhores Universidades do mundo; sem falar no Deutsches Museum (Museu Alemão), especializado em ciência e tecnologia. No Brasil temos alto índice de analfabetos, mortos-vivos e “absorventes” do funk que leva, cada vez mais, a capacidade dos brasileiros, até o chão.
Será que Bonn está tão afastado ou somos nós que estamos tão anêmicos de informação e bons resultados?
Eu adoro me fazer perguntas. E você? Aliás, já é mais outra pergunta!
José Neto Pandorgga

07/01/2008

APERITIVO SOBRE GLOBALIZAÇÃO

Uma princesa inglesa com um namorado egípcio sofrem acidente num carro alemão, dentro de um túnel francês, conduzido por um motorista belga, bêbado de uísque escocês, seguido por fotógrafos italianos, com câmeras japonesas, relógios genebrinos, em motos germânicas.
A princesa Diana (1961-1997) foi tratada por médico americano que usou conhecimentos cubanos, medicamentos ameríndios, equipamentos canadenses e instrumentos suecos.
Você, brasileiro, toma conhecimento deste fato, usando tecnologia coreana, através de seu computador com chips de Taiwan, montados por trabalhadores de Bangladesh, numa fábrica de Singapura, empacotados por indonésios, transportados por indianos, descarregados por pescadores sicilianos, estocados por mexicanos e, finalmente, vendidos por judeus, através de uma conexão paraguaia.
Acredito que seja excelente aperitivo para que possamos entender um pouquinho sobre a tal "Aldeia Global".
José Neto Pandorgga

26/11/2007

IDEOLOGIA

Particularmente, o assunto “Ideologia” serviu-me como inversor de conceitos, pois, como a maioria das pessoas, eu estava imerso nos velhos preparados psicológicos, pensando estar contribuindo para o coletivo. Eis aqui o exato sucesso dessa palavra “Ideologia”. Pensamentos predeterminados, difundidos como altruístas, fazendo com que todos colaborem para um fim, geralmente, egoísta e inicialmente oculto.
Não temos como falar de Ideologia sem mencionar a questão das reviravoltas políticas, dos acertos e desacertos dos nossos pseudo-condutores que, a cada dia, divulgam notas ou opiniões absolutamente contrárias das que eles mesmos haviam feito há pouquíssimo tempo.
O grande ponto de atenção é saber usar todos os artifícios literários e públicos para não cairmos nos alçapões espalhados.
O importante é manter os olhos e ouvidos em diferenciados meios de comunicação, utilizando ferramentas comparativas para cada conteúdo e sempre guardando espaço intelectual para a possibilidade de nova e inusitada sentença, em relação a qualquer assunto.
As frases ideológicas me fazem lembrar os líderes que declaram guerra em nome da paz. Pior do que isso é saber que pessoas como eu e você acreditamos nesse emaranhado de confabulações, supostamente de sucesso, para estabelecer a vontade da minoria. Sabemos que o discurso político é (aliás, sempre foi) uma eficaz tática para instaurar, falsa e verbalmente, a idéia de preocupação com a igualdade social. Vejamos a grande farsa de que participamos como coadjuvantes pagantes.
Quem está desfrutando das riquezas fornecidas por quem? Claro que eles não podem abrir mão da Ideologia. Nunca. Criarão mais reuniões, mais CPIs, mais estratégias para combinar o quê irão dizer e de que forma iremos ficar comovidos com tantos feitos a favor da população.
Quando o povo não tem memória, nem escolaridade, as Eleições tornam-se qualquer coisa que a cúpula queira. Basta que o pacote de interesses seja combinado e bem dividido, entre eles. Nem acredito em alternância de poder, porque alguns estão lucrando sempre e cada vez mais; enquanto os pobres são continuamente lesados de seus teóricos direitos constitucionais.
A Democracia ideal seria um regime político mais justo, manifestada no processo eleitoral, na rotatividade consciente de governantes e na aplicação real de soluções – não políticas – para a infinidade de problemas. Mas, favores, paternalismo, mimos, nepotismo, loteiam a indústria risonha e política que transforma eleitores em consumidores.
A sociedade brasileira deseja um político "salvador da nação", enviado por Deus e confirmado pelo voto da maioria que pede para ser enganada, iludida, saqueada, ludibriada e, posteriormente, encontra-se atendida.
O conflito de interesses é posto pela exploração de uma classe social sobre as outras, mesmo quando nossa protagonista “Ideologia” tenta afirmar que todos nós somos livres e iguais.
José Neto Pandorgga

26/09/2007

O TEMPO NÃO NEGOCIA

Crescemos e nem me dei conta do tempo.
De repente o espelho revela que tudo está diferente.
Minha aparência mudou. Meus olhos estão sem aquela luz que se acendia quando chegava da escola e enxergava minha mãe. Vinha o grito desesperado, misturado com alegria e um abraço apertado, recoberto pela voz mais importante da minha vida, que dizia: Meu filho!
Só consigo me ver através do encontro com meus irmãos. Intrigado, percebo que estou conversando com dois adultos.
Enganado e certo ao mesmo tempo, imagino que estou ali porque alguém tem que cuidar de mim e ainda não posso ficar sozinho. Aliás, esta é a única certeza que me resta: Não posso ficar sozinho!
Minha irmã, a criatura mais bonita que já vi, agora tem outras duas crianças, são chamados de sobrinhos.
Meu irmão, que entrava em casa louco pra brincar, só anda falando que vai para o distante, onde não poderei mais o abraçar. Já disse pra ele que minha mãe recomendou: Não posso ficar sozinho!
Que chato esse tal de tempo, levou quase todo meu sentimento, nem sequer pensa em descansar. Será que não vai parar? Devolver minha alegria, o lençol passado a ferro, chocolate no inverno, histórias pra me acalmar?
Lembro da primeira bicicleta da minha irmã. Eu estava no banco de trás de um carro que seguia bem devagarzinho, ela mal alcançava os pedais, guidão comprido e diferente, assim como aquela tarde que jamais esquecerei.
Meu irmão – esse que cuida de mim – acabara de nascer. Lembro de uma pequena colcha de lã azul, do frio que o fazia sofrer e da Brasília vermelha que minha mãe tinha, e brilhava pra valer.
Crescer, que nada... Preciso voltar pra lá e alguém tem que deixar!
Eu era feliz e sabia! Mas o tempo, infelizmente, não negocia.

José Neto Pandorgga