GARGANTA DE PORCO

Tarde de sábado, família no quintal, uma boa 'garganta de porco' (culinária suína) na pressão (panela de pressão), cebolinha, tomate, farofa e algumas cervejinhas no gelo. De repente apertam a cigarra. Era o pessoal da Companhia de Energia, alegando que o relógio da residência estava sem o lacre de segurança. Segundo eles, isso caracterizava suspeita de 'Gato' (ligação clandestina). Entraram, testaram, analisaram, sentiram o cheiro da comida e deixaram o parecer técnico que realmente não havia 'Gato' na rede. Após tudo isso, antes de sair, instalaram um lacre amarelo.
Seguiu o almoço, como de costume.
Uma hora depois, tocaram a cigarra. Era o pessoal da Companhia de Energia. Desta vez, disseram que precisavam investigar o quadro de luz, porque observaram a presença de um lacre amarelo no relógio e isso caracterizava... suspeita de 'Gato'.
Mais uma vez repetiram toda a rotina, sentiram o cheiro da comida e reconfirmaram o parecer anterior que não havia 'Gato' nenhum, descarregando a energia da rua. Antes de deixar o local, colocaram novo lacre, agora, marrom.
Suíno temperado no fogo, molho à campanha saindo e, uma hora mais tarde, castigaram a cigarra de novo. Inacreditavelmente era o pessoal da Companhia de Energia. Disseram que precisavam checar a instalação, porque observaram um lacre marrom no relógio e... antes que terminassem o discurso, o proprietário da casa completou: "E isso caracteriza suspeita de Gato".
Procedimento cumprido... chamaram o dono da casa e - quase secretamente - perguntaram: "Será que o Sr. poderia colaborar com o leite das crianças"? (propina) O proprietário falou: "Por que eu deveria dar dinheiro a vocês? A ligação da casa está dentro da lei". Os funcionários entreolharam-se e disseram: "É... O Sr. tá certo. (Já no desespero fizeram a última tentativa) Então... será que a gente pode participar dessa 'garganta de porco' que tá na pressão desde cedo"?
Depois de todos almoçarem graças a generosidade do bom homem, ele disse: "Nunca vi rato procurar Gato e acabar aceitando porco para substituir leite de criança".
Haja 'garganta de porco' na pressão pra tanta malandragem!
José Neto

PRESSÁGIO

Mais um jornalista é assassinado no Rio de Janeiro, em busca da notícia e de melhores imagens para aumentar a audiência da TV. Quem se beneficia quando repórteres fazem incursões militares junto com policiais?
Se o povo aceita esse tipo de adrenalina no sofá de casa e se a polícia quer atenção imagética, por que não inserir câmeras nos capacetes da corporação? Pelo menos, eles estão - supostamente - treinados para esse tipo de atuação e risco.
Penso que algumas combinações podem nos oferecer um futuro desastroso. Violência e sexo gerando audiência para satisfazer o capitalismo que contaminou as vísceras da programação televisiva. Pra mim, os próximos passos serão distorcidos e catastróficos.
Visivelmente não há mais qualquer estrutura sustentável no serviço carcerário, e tudo caminha para a privatização do setor. Mesmo não querendo dar uma de profeta, já imagino estúdios de TV se instalando nos presídios que se transformarão em ambientes 'controlados', em laboratórios de seres quase humanos, dispostos a tudo. Desta forma, filmarão e exibirão ainda com mais detalhes os horrores dessa ferida contagiosa, para abastecer novos cofres. É triste prever isso, mas, infelizmente, vejo essa possibilidade.
Além dessas operações atuais, concordo que os policiais devam ter seu ofício acompanhado, também por causa dos inúmeros abusos. Meu voto é para que coloquem lentes-vigilantes nos uniformes dos comandantes de cada missão militar. E, ao final de cada tarefa, as imagens sejam assistidas por oficiais-corregedores e depois distribuídas para as emissoras, caso não haja nenhuma mudança nessa prática.
Sinto muito pela perda de jornalistas no exercício de suas funções não-militares, todavia com resultados colaterais igualmente arriscados.
Temos um grande debate em torno dessa gigantesca pauta que mistura dinheiro, Segurança, drogas, corrupção, mercado-negro de munição revestida, grupos táticos, vaidade e jornalistas em horário de trabalho.
José Neto