A neve cobre todo o percurso e preciso acreditar que dois pinguins ficam com óculos providos de infravermelho, na parte superior dianteira da locomotiva, orientando o maquinista. Se o trem não estivesse encarrilado, seria impossível seguir a rota, porque os trilhos simplesmente somem com a grossa camada de gelo.
A paisagem é bonita, porém constante. Todos os lagos estão congelados nessa época e a vegetação não resiste a temperaturas tão baixas quanto as do mês de janeiro, que circundam os trinta graus negativos.
As poltronas são largas e muito confortáveis, parecendo “primeira classe”.
O ambiente é aquecido e oferece janelões para uma viagem - também - visual, ao longo das doze horas entre Montreal e New York City.
Dependendo do seu objetivo, a velocidade do trem pode ser fator positivo ou negativo. Como eu estava sem pressa e com o intuito de conhecer o máximo da geografia e costumes daqueles países, a lentidão do veículo esteve a meu favor. Alguns desavisados reclamaram, pois o trem poderia perfeitamente ser acompanhado por uma lebre bem treinada, bastando apenas que ela tivesse agasalhada com um casaco da marca “The North Face” para não empedrar na linda paisagem lacustre.
Assim que o trem partiu, levantei para ir - rapidamente - ao banheiro. Quando voltei, achei que a companhia havia distribuído notebook, Ipod e Iphone para todos os passageiros, esquecendo de mim. Mas eu também gostaria de desfrutar do meu “Amtrak-Dia-Feliz”. Que nada, as pessoas possuem seus próprios brinquedinhos “high-tech” e os levam a todos os lugares.
Após um tempo de trajeto, entraram três MIB (Mens in Black) portando seus emblemas NYPD (New York Police Department) e eu percebi que estávamos parados ao lado de uma tremulante bandeira dos Estados Unidos, abandonando o território canadense. Quase perguntei se era a diligência do Jack Bauer (24 Horas), porque eles exibiam armas letais e não-letais, modernos transmissores, spray de pimenta, fardamento impecável e frases enérgicas nas portas de todos os compartimentos. De repente, uma mulher negra é convidada a se retirar, porque escondia um bebê no meio de seus pertences, simulando ser parte de sua bagagem de mão... Não gostaria de estar naquela situação.
Em seguida, o trem segue numa bela e agradável viagem pelo interior dos EUA. Perto das 21h desembarcamos, sem maiores problemas, na cidade de New York para novas aventuras que serão contadas em outras oportunidades.
José Neto